Sobre amar e proteger

Sobre amar e proteger

Era a primeira viagem pro exterior da Família Costa. Finalmente Arlindo e Joana atendiam ao pedido de Sibila, sete anos, e Rosa, 13: conhecer a neve! Tudo planejado, pousadas reservadas, casacos comprados, passeios definidos, máquina fotográfica a postos, passaporte e documentos todos ok, farmacinha completa na mala de Joana. Devidamente prevenidos e seguros (e, claro, felizes!!!), os  quatro embarcam rumo a Bariloche. O encontro de Sibila e Rosa com a neve dispensaria apresentações, se não tivesse sido tão bonito.

Esquecidas de si próprias, as meninas corriam, deitavam, jogavam bolas de neve. Esquiar foi também uma experiência inesquecível. Talvez pela pouca idade, Sibila só esquiava com seus pais ou o instrutor do lado. Já Rosa era, de fato, um fenômeno. Facilmente descia as montanhas, desviava dos obstáculos, sentia-se livre e potente imprimindo velocidade. E assim uma semana passou rápido como se fossem dois dias. Mas já??!, protestavam as meninas, principalmente Rosa que tinha elegido o esqui seu esporte favorito. Antes de voltarem ao hotel para arrumar as malas, os pais concederam as duas uma merecida despedida da neve. Sibila resolveu construir um grande boneco e Rosa, com a destreza de sempre, desceu a montanha com vento nos pés. Passado algum tempo, Joana sentiu que algo não ia bem, pois sua filha ainda não tinha voltado. Lá embaixo um acidente grave, Rosa jamais voltaria.

Algumas páginas do livro de nossas vidas não parecem escritas por nós. Como se um autor desconhecido tivesse anexado um apêndice estrangeiro aos nossos planos e sonhos, nossa história ganha um efeito reverso, como o retorno de uma explosão, ou uma curva rebelde no tempo que desloca pro agora acontecimentos que pertenceriam a 70 anos à frente. Assim aconteceu com a Família Costa.

Cinco meses antes do acidente que levaria a filha mais velha, Arlindo, aconselhado por um amigo corretor, aceitou a sugestão e fez um seguro de vida, incluindo suas filhas. Após conversar com o amigo, compreendeu que aquela poderia ser uma segurança e um real investimento. Não que ficasse pensando no pior, aliás, não poderia nem imaginar que algo pudesse acontecer a nenhuma das “mulheres” de sua vida, mas também sabia que não estava em suas mãos o controle do destino. Após a partida de Rosa, Arlindo lembrou-se dos conselhos de seu amigo, pode compreender, em silêncio de reflexão, o imponderável, o intangível, as curvas tortas da escritura divina. Fez as pazes com o Criador. Fez as pazes consigo mesmo. Ainda não sabia como transformar aquela dor que talvez o acompanhasse, como também Joana e Sibila, por muito tempo, talvez por toda a vida. Mas carregava em seu coração a certeza de que, cinco meses antes, tinha tomado uma sábia decisão que o colocava ainda mais próximo de seu papel de pai e protetor.

[A história de Arlindo e sua família (nomes fictícios) é baseada em fatos reais da vida de um beneficiário de uma companhia de seguros.]